“Doença camaleão”: sintomas variados e silenciosos dificultam diagnóstico da doença celíaca

Dor abdominal, anemia persistente, alterações na pele, exames hepáticos alterados, distensão abdominal e até constipação. Apesar de ainda ser associada principalmente à diarreia e aos problemas intestinais, a doença celíaca pode se manifestar de formas muito diferentes, o que dificulta o diagnóstico e faz com que milhares de brasileiros convivam anos com a condição sem saber.

Com base na prevalência mundial, a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra) estima que existam hoje cerca de 2 milhões de celíacos no país. A maior parte, no entanto, ainda não recebeu diagnóstico.

A médica Carolina Pimentel, coordenadora nacional da pós-graduação em gastroenterologia da Afya Educação Médica, que possui uma unidade em São Luís, explica que a doença é considerada uma das condições mais “camaleônicas” da gastroenterologia justamente pela variedade de sinais que pode apresentar.

“A doença celíaca é muito camaleã dentro da gastro. Talvez essa seja uma das maiores dificuldades da doença”, afirma. Segundo ela, durante as aulas sobre o tema, a condição costuma ser comparada a um iceberg. “A pontinha, aquilo que é visto, são os sintomas clássicos: diarreia, anemia, baixo peso e dificuldade de crescimento nas crianças. Mas a grande maioria dos pacientes não vai ter sintomas clássicos”, destaca.

A especialista explica que os sintomas podem surgir de forma discreta e atingir diferentes partes do organismo. “Ela pode apresentar sintomas gastrointestinais bem variados, como distensão, dor e até constipação. Também pode se manifestar com alterações hematológicas, hepatológicas e na pele”, afirma.

Essa multiplicidade de manifestações faz com que muitos pacientes passem anos tratando apenas as consequências da doença. “Muitas vezes essas pessoas ficam tratando anemia, dermatite, alergias, intolerâncias alimentares ou investigando alterações hepáticas sem descobrir a causa real”, explica a médica. Em alguns casos, o paciente sequer apresenta sintomas perceptíveis.

Por ser uma doença autoimune, a condição também costuma aparecer associada a outros quadros do mesmo tipo, o que exige atenção médica redobrada. “A suspeição clínica é muito importante, principalmente em pacientes que já têm outras doenças autoimunes ou histórico familiar de doença celíaca”, ressalta.

Confusão entre intolerância e doença celíaca

Segundo a médica, uma das maiores dificuldades atualmente é diferenciar doença celíaca, intolerância ao glúten e sensibilidade ao glúten. Em meio ao crescimento das dietas restritivas, muitas pessoas acabam confundindo condições completamente diferentes. “Existem pessoas sensíveis ou intolerantes ao glúten, que comem determinados alimentos e apresentam desconforto, distensão ou diarreia. Mas isso acontece pela dificuldade de digestão e não porque o glúten provoca um processo autoimune”.

Na doença celíaca, o mecanismo é mais complexo. O organismo interpreta o glúten como uma ameaça e passa a produzir anticorpos contra a substância. O problema é que esses anticorpos acabam atacando o próprio intestino. “O corpo cria anticorpos para defender do glúten, mas esses anticorpos se confundem com proteínas intestinais e começam a atacar o próprio organismo”, afirma.

Com o passar do tempo, a inflamação contínua compromete a absorção de nutrientes e pode provocar anemia, desnutrição e perda de peso. Em situações mais graves, o quadro também aumenta o risco de desenvolvimento de um tipo de câncer chamado linfoma de células T, relacionado à própria doença celíaca. “Pacientes que continuam consumindo glúten sem saber que têm a doença expõem o organismo constantemente a substâncias que desencadeiam o processo inflamatório”, alerta a coordenadora nacional da pós-graduação em gastroenterologia da Afya Educação Médica, que possui unidade em São Luís.

Impactos emocionais e sociais

O diagnóstico da doença celíaca também costuma provocar mudanças importantes na rotina e na vida social dos pacientes. Isso porque o glúten está presente em muitos alimentos consumidos diariamente, como pães, massas, bolos e biscoitos. “Quando a gente dá o diagnóstico, é preciso acolher o paciente. Muito da alimentação ocidental tem como base alimentos com glúten e, num primeiro momento, muitos se sentem privados de tudo aquilo que entendem como prazeroso”, afirma.

E é comum que os pacientes inicialmente resistam à mudança alimentar. “Muitos se revoltam, não aceitam e tentam buscar formas de consumir glúten de vez em quando”.

Atualmente, o único tratamento eficaz é a exclusão total do glúten da alimentação. Embora pesquisas avancem em busca de alternativas que permitam controlar a resposta imunológica da doença, ainda não existe cura. Apesar disso, a médica Carolina Pimentel destaca que a adaptação tende a acontecer com o tempo, especialmente diante da ampliação da oferta de produtos sem glúten no mercado. “Hoje existe muito mais facilidade de acesso a alimentos sem glúten. Por mais difícil que seja no início, esses pacientes conseguem se adaptar e ter uma vida totalmente normal”.

Além da melhora dos sintomas, a restrição alimentar adequada reduz significativamente os riscos de complicações futuras. “Quando o paciente exclui o glúten, não só os sintomas clínicos e inflamatórios melhoram, mas ele também se protege de complicações que podem ser evitadas”, conclui.

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