CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 08 - Publicada em 10/06/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

ENCONTREI, HÁ ALGUM TEMPO, uma frase de Affonso Romano de Santana que bem se aplica ao espírito humano e, em especial, aos tempos em que vivemos: “a tarefa do homem é refazer-se a partir de suas ruínas”. (In A mulher madura. Rio de Janeiro: Rocco, 1987). Nada mais claro, trágico e, ao mesmo tempo, beirando a impossibilidade. E a palavra “ruínas” parece dar um caráter sinistro ao que é dito. Afinal, nenhum de nós contempla a possibilidade de nos vermos em situação de desastre. O homem e suas ruínas, o homem e suas derrotas, o homem e seus fracassos, são condições que assustam muitos de nós. Mas a fênix renasce das cinzas, e o homem pode renascer também. O problema é que, hoje, muitos de nós valorizamos aspectos cuja falta muito nos afeta. É o velhíssimo e batido lugar comum: valorizamos o ter e não o ser. Eis a raiz do problema. É o ter, ou melhor, a falta dele, o não ter, que pode levar o homem à ruína. A sociedade em que vivemos, e tomando-a em dimensão global, corre em busca da realização pessoal em níveis materialistas: o status econômico-financeiro, resultado de um bom emprego que permite adquirir casas luxuosas, carros caríssimos, viagens constantes ao exterior, etc. Obviamente que é uma atitude absolutamente hipócrita dizer que tudo isso é bobagem (lembremo-nos: quem desdenha, quer comprar). Claro que nada isso é intrinsecamente ruim, e o valor do que se tem está na maneira como o espaço que o desfrutar de tudo isso ocupa na vida do possuidor. Mas, e se a roda da fortuna inverter o sentido do giro? E se tudo acabar? Se, um dia, o que se deitou milionário acordar apenas com a roupa do corpo? É exatamente nesse momento que a visão da ruína porá a prova a capacidade de reagir aos infortúnios, de superar o choque e recomeçar, ou, apenas, desistir e deixar-se derrotar. Há muitos exemplos de ruínas desse tipo. É nessa hora que se faz necessária a força do ser, ou o que sobrou dela, para que o indivíduo reúna seus pedaços, encare a derrota, o fracasso, o insucesso, tire deles todas as lições possíveis e refaça-se a partir do que restou, e o que restou é, simplesmente, ele mesmo. Nessa hora, olhar-se no espelho e dizer “eu sou” (esquecendo o eu-não-tenho) pode ser o caminho para o homem-fênix renascer das cinzas e das ruínas.

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

VER COMENTÁRIOS

Artigos relacionados