CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 07 - Publicada em 03/06/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

VAMOS ABORDAR UM TEMA delicioso: a leitura. Ler nos leva a outros tempos e lugares. Para isso, tenho três sugestões a fazer. A primeira é o Bar Don Juan, de Antônio Callado, um retrato do primarismo daqueles que, nos tempos do regime militar, pegaram em armas contra o governo. Bar Don Juan foi publicado em 1970, época dos Anos de Chumbo, um dos mais violentos períodos da história recente do Brasil. Era o tempo em que os contestadores – os subversivos – envolviam-se com a luta armada, praticando sequestros, assaltando bancos e tentando estabelecer núcleos guerrilheiros pelo interior do país. O livro mostra, nas palavras de Luís Carlos Maciel, que “deve ter sido chocante perceber que aquilo que começou como uma missão histórica afinal se revelou uma aventura quixotesca, romântica, dona de uma beleza tocante, mas vã”, vivida por jovens que abandonaram a rotina de trabalho, estudo e família para cumprir o que viam como o heroico dever de fazer a revolução e derrubar o governo militar. Outra leitura atraente é Sombras da romãzeira, de Tariq Ali, que podemos chamar de ficção histórica. Tariq Ali, autor de Confronto de fundamentalismos: cruzadas, jihads e modernidade, nos leva a 1502, quando um decreto dos reis católicos, Isabel e Fernando, proibiu aos muçulmanos a prática de hábitos ligados à religião, recurso da Igreja Católica para forçar-lhes a conversão ao cristianismo. Vivemos, assim, os últimos dias da Granada muçulmana. Uma narrativa que mostra como o convívio pacífico e tolerante pode transformar-se em guerra graças ao radicalismo movido por interesses. A terceira sugestão é O azul da virgem, de Tracy Chevalier. Está na última capa: “Um livro emocionante que narra a história de duas mulheres que viveram a séculos de distância e a herança ancestral que as une.” Tal como o de Tariq Ali, O azul da virgem também é ficção histórica, e a autora alerta que “a maioria dos lugares citados neste livro existe, mas nenhuma das pessoas existiu.” A história de Ella Turner e de Isabelle du Moulin, chamada La Rousse, tem, como pano de fundo, a reforma protestante, no século XVI, e sua chegada a regiões rurais no montanhoso sul da França, e a conversão de camponeses à Verdade, nome dado aos ensinamentos de Calvino, fazendo com que os huguenotes, os protestantes franceses, dominassem a região. São títulos que merecem atenção do leitor contumaz e de quem quer dar início a um sólido hábito de leitura.

 

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

 

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