CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 06 - Publicada em 27/05/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

AS PARCAS, na mitologia grega, são três, filhas das Trevas (Érebo) com sua irmã Noite (Nix) e cabe-lhes decidir o destino dos homens. Chamam-se Cloto, que tece o fio da vida e é responsável pelo nascimento de cada indivíduo; Láquesis, que enrola o fio tecido – o fio da vida – determinando o comprimento. Deve-se a ela o que ocorre ao longo da vida de cada um. E Átropos, que corta o fio, pondo fim à travessia. Estavam em um ônibus e a conversa entre elas chamava a atenção dos passageiros. Cloto, mulata baixinha e gorducha, óculos de lentes grossas, falava de partos fáceis e difíceis, lícitos e ilícitos, apimentando esses últimos – menina, sabe a fulana, filha de beltrana, pois é quinze anos e já pariu de novo. Láquesis, ar preocupado, obesa, aparentando mais idade do que suponho que tivesse, relatava problemas comuns à vida dos mortais, com ênfase na vida de pessoas a quem conhecia e que, para ela, eram um bando de imprestáveis. E Átropos, a que menos falava, alta e magra, rosto ossudo e severo, narrava em detalhes a morte de uma amiga de infância, que, segundo ela, morreu em acidente de carro dirigido pelo amante, enquanto o marido trabalhava. As Parcas conversavam, alheias aos passageiros, e eu me perguntava o porquê do interesse pela vida do vizinho. Se cuidar da própria vida já é tarefa difícil (viver é muito perigoso, escreveu Guimarães Rosa), por que dedicar-se a prestar atenção à vida alheia? Creio que são pobres de espírito que, movidos por uma frustração, buscam compensá-la imiscuindo-se na vida do outro, procurando um erro, um desliza, um vício que reduza a imagem do outro a pequenas dimensões: uma forma de vingar-se do mundo atingindo o próximo. Peça a alguém que defina a si próprio em meia dúzia de palavras. Uns pensarão muito; outros, pouco. Mas construirão uma minielegia cheia de lugares comuns – inteligente, bonito, prestativo e mais um sem-número de boas qualidades, algo entre o narcisismo e a falta de criatividade. Mas peça-lhes para definir o(a) vizinho(a), e serão dúzias de palavras apontando, principalmente, defeitos e descaminhos do(a) outro(a). Assim é o ser humano: olhar para si pode trazer frustrações; melhor divertir-se com as mazelas alheias. Está na Bíblia: “aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra.” (João, 8:7) Porém, a propensão do ser humano para a lapidação moral, permite ligeira alteração: embora você tenha pecados, esqueça-os jogando pedras.

 

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

VER COMENTÁRIOS

Artigos relacionados