CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 05 - Publicada em 21/05/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

TRÊS PALAVRAS BASTARAM para me fazer refletir: sofrer para quê? Isso foi dito por uma jovem senhora à amiga, mais velha. Ouvi-as quando, parece-me, iam para uma academia de ginástica (os trajes assim indicavam). Como toda pergunta, essa também é inteiramente válida; e a resposta é o que importa. E foi ela mesma quem respondeu: sofrimento não tem sentido. Será que não tem? Quantos de nós consideramos que o sofrimento é parte integrante deste processo a que chamamos vida? Ao se falar em sofrimento, não deve vir à mente apenas a dor, a doença, a perda supostamente insubstituível. Sofremos, no dia a dia, perdas menores: sofremos porque viver é sofrer, sobreviver é encontrar um sentido para o sofrimento. E aí está a dificuldade quase insuportável e, para muitos, intransponível: aceitar o fato de que o sofrimento tem sentido, de que há uma razão para o sofrer. Para Nietzsche, quem tem um motivo para viver, pode suportar quase tudo. E eu acrescento: até o sofrimento. Dostoievsky dizia que só havia uma coisa que ele temia, e que era não ser digno do próprio sofrimento. Mas não são necessárias apenas as palavras de gênios da literatura para que tenhamos consciência de que mostrar que se é digno do próprio sofrimento é o que torna possível alcançarmos um estágio elevado na escala da condição humana. É evidente que a ninguém agrada sofrer, seja por que motivo for. Doenças, desilusões, perdas, tudo o que é fonte potencial de sofrimento nós nos apressamos a manter longe de nosso caminho. E é evidente que não precisamos ser tão extremamente rigorosos com nós mesmos ao ponto de nos levarmos ao martírio. Mas devemos aprender a lidar com os percalços do dia a dia – não importa quão graves sejam – de modo a deles extrairmos lições valiosas. Afinal, tal como outros momentos na vida, o sofrimento também ensina alguma coisa. Voltando a Nietzsche: o que não nos mata, nos faz mais fortes. Cada um, a seu modo, vai aprender algo. Lembremo-nos de que o sofrimento, além de relativo, é individual e intransferível. Não há uma escala para o sofrer. A dor de cada um é única. Tome-se como exemplo alguém que, devido a uma catástrofe natural, perdeu tudo: moradia, familiares e todos os seus bens. Será que a dor que esse indivíduo sente é maior que a da mãe que perdeu seu único filho? Não sei. Ninguém sabe.

 

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

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