CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 13 - Publicada em 16/07/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

LI, HÁ ALGUM TEMPO, artigo de Antropologia que abordava a questão do relacionamento dentro de grupos primitivos. O cenário situava-se algumas centenas de milhares de anos atrás e o autor chamava a atenção, em especial, para a necessidade que nossos ancestrais tinham de viver e de realizar, em grupo, as tarefas essenciais para a sobrevivência, como a caça, por exemplo. Não é difícil perceber que, entre eles, o aforismo “a união faz a força” era, literalmente, verdadeiro. Afinal, como enfrentar, sozinho, tanto os predadores da época como, mesmo, a natureza hostil? Assim, o homem, já então sapiens, não teve dificuldades para perceber que a integração do grupo era a força que o levaria adiante; no que, obviamente, ele não errou. Hoje, não encontramos dinossauros nos jardins, não saímos para caçar (pelo menos, não literalmente) o alimento do dia e vivemos em grupos organizados, regidos por leis e costumes, que compõem a grande sociedade humana. Só que a união, tão necessária naquele amanhecer dos tempos, não é comumente vista nos tempos atuais. Há muitos recursos que dão aparente independência aos humanos, fazendo com que eles, consciente ou inconscientemente, vejam-se como capazes de levar a própria vida sem ter que, obrigatoriamente, manter contato com o próximo. E há um lugar no qual o isolamento entre os humanos se torna bastante patente: o elevador. Repare, caríssimo leitor, o comportamento das pessoas em uma cabine de elevador, em especial se estiver lotada. Há uma tentativa patética de alheamento. Uns olham para cima, olhos cravam os olhos no indicador dos andares, há os que olham para baixo, mas raramente há algum que olhe os outros nos olhos e até, sacrilégio dos sacrilégios, dirija a palavra a algum desconhecido, ainda que seja para falar da chuva ou da falta dela. Seja em prédio residencial ou comercial, o resultado é o mesmo: o homem, neste momento já não tão sapiens, parece recear a aproximação do seu semelhante e esforça-se, ao máximo, para manter-se trancado em seu mundo, “defendendo” (quão patética é tal atitude!) sua individualidade. E o pior é que vemos esse comportamento ultrapassar as portas do elevador e se espalhar pelo dia a dia. Se nos mantivermos nesse caminho, como será o futuro da espécie no que se refere às relações entre os humanos? Seremos alguns bilhões de almas que não se dignarão, ao menos, desejar um bom dia para o vizinho? Esperemos, ardorosamente, que não.

 

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

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