CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 12 - Publicada em 08/07/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

NOSSA LÍNGUA, ENVERGONHADA, pede a criação de um Índice de Desenvolvimento Cultural (o IDC) a exemplo dos muitos outros que andam por aí. Mede-se a qualidade de vida da população, a situação econômica do país, a qualidade da educação, da saúde e da segurança e dever-se-ia medir o nível de desenvolvimento cultural do brasileiro. Talvez o resultado fosse aceitável menos em um ponto: o idioma. O jornalista maranhense Lago Burnett (no andar de cima desde 1996), editorialista nos tempos áureos do Jornal do Brasil, e um dos nomes de destaque no jornalismo brasileiro, é autor de um texto impar, Língua envergonhada (peço licença para, indiretamente, me aproveitar desse titulo) e, logo na primeira linha, ele dispara: “O brasileiro não suporta a sua língua” e, se pudesse escolher, “provavelmente a opção seria o inglês”. É no parâmetro idioma, do IDC, que a catástrofe se materializaria e mostraria a verdade das palavras de Burnett. Pelo que se vê por aí, o brasileiro tem aversão, ojeriza, desprezo pela língua portuguesa. De que outro modo se explica o uso indiscriminado e ridículo de palavras estrangeiras por toda parte? Não se trata de estrangeirismos, palavras já integradas ao idioma, como futebol, abajur e muitas outras. Isto é fenômeno normal. O que incomoda é o excesso inútil de palavras estrangeiras que têm correspondente em português. Por que usar sale em lugar de liquidação? Será que veremos, na vitrine da Macy’s, em Nova Iorque, um cartaz anunciando “queima de preços”? E off no lugar de descontos? E outlet, que nada mais é que um brechó de luxo? Ou a ridiculamente patética Black Friday? Já imaginaram a Harrods, a mais luxuosa e exclusiva loja de departamentos do mundo, em Londres, anunciando “Liquidação! Preços lá embaixo”, bem do jeito de algumas lojas tupiniquins? Pensando bem, essa indigência cultural não chega a surpreender. Afinal, a língua portuguesa é assassinada todos os dias e de várias formas. Saia pela rua, caro leitor, e veja o sem-número de barbaridades cometidas contra o idioma. Ou, então, nas escolas, imagine o que a folha de papel é obrigada a aguentar. Com certeza, são poucos os que sabem que o idioma – como o hino, a bandeira e as armas da República – é um dos símbolos da nacionalidade. Lembrando Bilac, estes parvos é que são a sepultura, a cova rasa onde está enterrado o respeito por um dos mais preciosos bens culturais de nossa terra.

 

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

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