CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 11 - Publicada em 01/07/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

IN VINO VERITAS, diziam os antigos romanos. Significa que alguém, após encharcar-se de álcool, desandava a falar coisas nas quais não seria capaz de pensar quando estava sóbrio. Assim é: a verdade está no vinho. É ele que destrava a língua e elimina as defesas conscientes ou inconscientes, e o falante dispara a falar o que deve e, principalmente, o que não deve. A troco de que esta reflexão antietílica? Porque surpreende como as pessoas são levadas pelas asas aparentemente libertadoras do álcool. Em menos de meia hora de conversa em uma mesa de bar (não importa se classe A ou Z) e após algumas cervejas e doses de caipirinha (ou caipirosca e assemelhados) amizades são construídas ou se solidificam (em geral com pouco ou nenhum álcool) enquanto outras são seriamente abaladas e, com frequência, destruídas (com muito álcool). É claro que nada disso é novidade. Basta lembrar que essas três palavrinhas atravessaram mais de dois milênios para chegar até nós. É sinal de que, já naquela época, muita gente se viu em situação difícil depois que os efeitos da ressaca se foram. O que surpreende (ou deveria) é que indivíduos que reputamos modelos de equilíbrio, de repente, após ultrapassarem o limite permitido para a ingestão de álcool – não aquele do bafômetro, mas o do bom senso – acionam uma mortífera metralhadora verbal e fazem um estrago enorme ao redor e, principalmente, a si mesmos. Incomoda-me lembrar que, apesar de tudo o que sabemos hoje, ainda a quem se deixe levar por usos e condutas reprováveis. Claro que uma cerveja bem gelada, acompanhada por tira-gostos e boa conversa, faz muito bem ao espírito. O problema está no espírito sedento de algumas pessoas que, na contramão de uma velha marchinha carnavalesca, ainda pensam que cachaça é água. Não vem ao caso (não me desculpo pelo radicalismo) dizer que o homem é assim mesmo, em especial porque generalizações são perigosas e, muitas vezes, burras, mas desagrada perceber que, talvez como resultado de um processo equivocado de socialização, a bebida alcoólica ainda seja trampolim para a construção de amizades, que podem durar menos que o tempo para se tomar duas doses. Não se pense que desprezo minha dose de uísque, principalmente se for oriundo da velha Escócia. Mas que tal o pé no freio para que certas verdades que vêm com o vinho fiquem lá onde devem estar: no fundo do poço do espírito?

 

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

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