CRÔNICA

Coluna Folhas Soltas – por Geraldo Campos

Crônica Nº 09 - Publicada em 17/06/2018 - na edição impressa do Jornal O Debate

ENTÃO A CONVERSA VOLTOU-SE para um tabu para quem passou dos 40: a velhice. Por que 40? Simples. A sabedoria popular lembra que, ao se chegar aos –enta, as coisas começam a se complicar: 40, 50, 60 e por aí vai. Também porque ninguém pensa em ficar velho. Perguntem a alguém com 18 anos se ele se imagina com 30. A resposta deve ser uma cara de espanto, como se ele dissesse: isso pode? Não só pode, como vai chegar. O problema é que a velhice parece vir de surpresa. Um dia – em geral o do aniversário – a ficha cai: estou velho. Não adianta se apavorar porque é inevitável. Por mais que elas e eles usem e abusem dos recursos proporcionados pela estética corporal, com ênfase na facial, é impossível enganar a si próprio. A plástica ilude os demais. Outro ponto é gostar de si mesmo, que permite olhar, sem medo, para o futuro. Por que não fazer planos depois dos 60? Cícero, em De senectude (Da velhice) mostra os enganos com relação à velhice. Por que afirmar que a velhice nos priva dos melhores prazeres? Os prazeres mudam com a idade. Os idosos podem sentir prazer na companhia de velhas amizades, dedicando-se à reflexão sobre a vida e a arte, por exemplo, pois lhes sobra tempo para as coisas do espírito. E é bobagem dizer que a velhice aproxima da morte. Começamos a nos aproximar da iniludível, como escreveu Manoel Bandeira, quando nascemos. Em termos cronológicos, está mais perto dela alguém com 90 anos que outro com 20. Mas aquela senhora não escolhe idade, a prova é o número de jovens que ela leva antes que cheguem aos 20. E o velho tem uma vantagem imbatível: já viveu muito; o jovem espera viver. Estar velho é normal. Problema é quando se É velho. Porque, aí, a velhice é de espírito, e essa é destrutiva. Estar velho não impede de correr uma maratona no grupo dos idosos; nem de desfrutar o que a vida tem para oferecer. Assim, prefiro outro termo para qualificar quem já viveu bastante: idoso. Melhor que a tal terceira idade. É uma palavra comum, que remete à noção de que aquele a quem ela é aplicada chegou mais longe em termos de presença no mundo. Mas se você É velho, amigo, resta-lhe esperar a hora do barqueiro e que Deus tenha compaixão de sua pobre, e velha, alma.

Geraldo Campos é professor, com passagem pela UnB e pela Universidade Católica de Brasília, jornalista e, nas horas vagas, contista (com alguns prêmios). Começou no jornalismo como revisor do Jornal do Brasil e, posteriormente, da revista Manchete. Passou por outros veículos de comunicação entre os quais as Tvs Aratins e Araguaína, no Tocantins, nas quais foi diretor de jornalismo. Tem, no currículo, trabalhos para a editora da UnB, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Secretaria de Reforma do Judiciário, entre outros.

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